Entre desejar e realizar

O mercado de paisagismo está ampliando seu vocabulário.

A gente agora fala também em experiência, em vivência, em espaços para pessoas.

Esses termos entraram no nosso repertório e passaram a aparecer em apresentações, em portfólios, em conversas com clientes.

Mas muitas vezes o projeto não mudou junto. A gente adotou o vocabulário da experiência e continuou projetando a partir dos elementos — escolhendo plantas por seus efeitos sensoriais, especificando materiais por suas qualidades táteis e visuais, acreditando que a soma dessas escolhas vai resultar na experiência que o vocabulário promete.

Nesse caso, as palavras descrevem um desejo, não uma realização.

A experiência já está no discurso, mas não necessariamente na estrutura do projeto.

Para que o vocabulário faça sentido de verdade, é preciso que a estrutura do projeto mude junto. E quando isso acontece — quando a experiência deixa de ser o resultado esperado e passa a ser o critério que orienta o projeto desde o início — algo importante muda também na relação com a matéria.

Se a experiência não está nas coisas, mas na coerência das relações entre elas, a especificação deixa de ser o ponto de partida e passa a ser o meio pelo qual você materializa uma intenção espacial que já foi definida.

O seu conhecimento botânico continua sendo fundamental. A diferença é o critério que vem antes dele. E é aí que o repertório criativo se expande. Você descobre que pode criar a mesma tensão espacial com uma espécie rara ou com uma planta comum, com uma nativa ou com uma comestível. Que pode estruturar um eixo visual com materiais sofisticados ou com soluções econômicas e regionais.

Porque o que sustenta a experiência não é o valor do elemento — é a coerência da relação que você estabeleceu entre eles. A sofisticação do projeto não vem dos materiais. É uma qualidade emergente da ideia — da forma como o espaço foi concebido, das relações que foram estruturadas.

Projetar a partir do vazio sofistica ideias. E ideias sofisticadas podem ser materializadas com muitas coisas. Você passa a fazer mais do que compor um conjunto esteticamente bonito — mais do que produzir um cenário, uma imagem.

Você passa a estruturar uma narrativa espacial que modifica a sensação e o comportamento das pessoas enquanto elas estão ali.

E o vocabulário deixa de ser apenas desejo.

Passa a representar também capacidade de transformar — e o próprio resultado que o projeto vai produzir no mundo real.

Para pessoas.

Com plantas.

Paisagismo não é jardinagem.

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Elementos ou relações?