Onde começar?

Um projeto que começa pela planta vai chegar até a planta.

Vai chegar bem, provavelmente. Com espécies adequadas, combinações harmoniosas e um jardim tecnicamente consistente. Pode ser bonito. Pode funcionar. E isso não é pouco.

Um projeto que começa pela vegetação como infraestrutura ambiental pode fazer isso tudo - e ir ainda mais longe. Vai produzir sombra, conforto térmico, drenagem, biodiversidade, corredores ecológicos e uma cidade ambientalmente melhor.

Mas existe uma maneira de ampliar ainda mais o alcance do projeto, se estivermos pensando nas pessoas e na relação delas com o mundo que as cerca.

Projetar primeiro os vazios.

Porque é neles que a experiência acontece.

É o vazio que organiza o percurso, estabelece hierarquias, constrói pertencimento, produz narrativas, conecta o lugar à paisagem e favorece determinados comportamentos. Antes da primeira planta, o projeto já organizou como aquele espaço interferirá na vida das pessoas.

Só então os cheios encontram o seu lugar.

A árvore é posicionada onde a permanência deve acontecer e, ao mesmo tempo, produz a sombra que a torna confortável. A densidade da vegetação estrutura os limites e os percursos do espaço enquanto segue regulando o microclima. A estrutura ecológica fortalece a biodiversidade enquanto participa ativamente da construção da experiência. A decisão espacial articulas as dimensões ambiental e botânica do projeto.

Isso que amplia a capacidade do projeto. As plantas deixam de ser escolhidas apenas por aquilo que são. Passam a ser escolhidas também pelo papel que desempenham na construção do espaço. Isso amplia o repertório de espécies possíveis, incorpora plantas que raramente seriam consideradas ornamentais e faz com que cada decisão produza, ao mesmo tempo, benefícios espaciais, ambientais e ecológicos.

A decisão espacial organiza as dimensões ambiental e botânica a serviço da experiência.

O projeto deixa de organizar plantas. Passa a organizar experiências.

O projeto deixa de organizar cheios. Passa a organizar vazios.

Porque projetar começa muito antes da primeira planta. Começa quando estamos definindo a narrativa, os percursos, os olhares, a identidade. Quando decidimos como aquele espaço irá interferir no comportamento, no ritmo, no pertencimento e na exclusão.

Começa quando sabemos o que queremos tornar possível.

O que a gente projeta é o que a gente entrega.

Para pessoas. Com plantas.

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