Projetamos Vazios. Executamos com plantas.
Existe algo de paradoxal no trabalho do paisagista.
A gente trabalha com seres vivos. Com matéria que cresce, muda, floresce e murcha. Que tem cheiro, textura, peso e cor. O repertório do paisagista é feito de coisas muito concretas — raízes, folhas, galhos, flores incríveis, a resistência de um tronco, a leveza de uma gramínea ao vento.
E as plantas fazem coisas extraordinárias.
Regulam a temperatura do ar e do solo. Absorvem água, reduzem enchentes, ajudam a recuperar ecossistemas degradados. Filtram poluentes, produzem oxigênio, abrigam fauna. Reduzem o estresse, melhoram o humor, aceleram processos de recuperação. Criam corredores ecológicos em meio ao concreto e devolvem à cidade algo que ela perdeu quando decidiu que eficiência era diferente da vida.
Tudo isso importa. Consideramos todos esses efeitos ao projetar. E ainda assim, o que a gente projeta é outra coisa.
Projetamos o vazio. O espaço entre as coisas. A ausência que dá sentido à presença. O espaço da vida e da experiência.
Projetamos percursos. Projetamos encontros. Projetamos a possibilidade de permanecer ou de seguir adiante. Projetamos identidade — a possibilidade de reconhecimento. Projetamos pertencimento, o convite, a inclusão.
Projetamos descoberta, contemplação, acolhimento. Projetamos a forma como o espaço se revela. O que ele comunica. O que ele sugere. O que ele favorece.
Projetamos o invisível que organiza a experiência de estar ali.
Nada disso está contido numa folha, numa flor ou num tronco.
Mas tudo isso pode ser construído com eles.
A planta não é o projeto. A planta é o instrumento com o qual o projeto se materializa. É o que usamos para dar forma a algo que não é matéria. Para tornar perceptível aquilo que existe primeiro como intenção.
Um vazio mal projetado não melhora com plantas especiais.
Um vazio bem projetado já funciona até antes delas.
Para pessoas. Com plantas.
Paisagismo não é jardinagem.