Sequestro Semântico
Quando o discurso atribui a um projeto sentidos que não participaram de sua construção, acontece um fenômeno que poderíamos chamar de sequestro semântico.
Evidentemente a arquitetura precisa de palavras. Elas permitem compartilhar uma investigação, tornar uma intenção compreensível, defender escolhas, comunicar um projeto a quem vai construí-lo e vivê-lo. Também permitem reconhecer e discutir relações difíceis de tornar visíveis em uma imagem.
Experiência. Memória. Pertencimento. Sustentabilidade. Conexão. Biofilia. Encontro. São palavras que carregam questões importantes e, justamente por isso, podem emprestar densidade e significado a propostas muito diferentes entre si.
Quando uma palavra é utilizada para apresentar um projeto sem ter participado do estabelecimento de critérios ou da orientação das decisões, conserva suas associações, seu prestígio e sua capacidade de produzir uma narrativa atraente. Mas esteve ausente do raciocínio que produziu o projeto.
Discurso não é conceito.
O conceito não nasce da busca por uma palavra capaz de resumir uma proposta. Ele se constrói a partir da leitura de uma situação: do lugar, das pessoas que o vivem, de suas condições, conflitos, necessidades, desejos, restrições e possibilidades. Essa leitura permite reconhecer questões, estabelecer prioridades e formular uma intenção capaz de orientar decisões.
Falar em “encontro” depois que um pátio está resolvido é fácil. Um conceito de encontro, porém, obriga o projeto a definir quem se encontra, de que maneira, entre quais atividades, por quais acessos, com qual grau de proximidade, exposição ou intimidade, por quanto tempo e em relação a que outras situações. A palavra passa a estabelecer critérios para decisões de escala, posição, percurso, visibilidade, permanência e relações espaciais.
Diante de decisões a respeito de uma implantação, uma abertura, um limite, um percurso, uma matéria ou uma condição ambiental, é o conceito que orienta o projeto. Ele estabelece o parâmetro que permite avaliar quais escolhas fortalecem a intenção e quais a tornam mais frágil. Um conceito não determina uma resposta nem antecipa uma forma. Estabelece critérios para escolher entre possibilidades diferentes e construir coerência entre elas.
O sequestro semântico acontece quando a solução já está dada e depois buscamos no vocabulário uma palavra capaz de atribuir a ela um significado que não participou de sua construção. Experiência, memória, pertencimento ou encontro continuam soando bem. Continuam carregando significados importantes. Mas poderiam ser substituídos uns pelos outros sem que nenhuma decisão do projeto precisasse mudar.
A diferença não está nas palavras que usamos.
Está no que elas foram ou não capazes de fazer pelo projeto.
Para pessoas. Com plantas.
Paisagismo não é jardinagem.