Saber querer

A gente só consegue desejar aquilo que sabe que é possível.

Saber querer exige repertório. Ter consciência do que pode ser transformado. do que pode ser criado. De como cada traço pode impactar na vida das pessoas.

Se o nosso repertório é estreito, as nossas intenções também serão.

Não basta apenas querer mais. É preciso querer melhor.

No paisagismo, o "querer" costuma ficar restrito ao universo das plantas e aos seus desdobramentos. A planta certa no lugar certo. Respeito ao ecossistema e à biodiversidade. Composições a partir dos atributos estéticos de cada planta, da linguagem em voga, ou de estilos consagrados.

Evidentemente sustentabilidade e beleza são premissas permanentes. São condições transversais que devem existir em qualquer trabalho bem-feito. São nossa responsabilidade e a expectativa que recai sobre nós. Mas são obrigação profissional, não o objetivo principal.

Então, o que podemos querer?

A experiência vivida no espaço, a experiência promovida pelo espaço.

O objetivo principal são as pessoas.

É a vida das pessoas.

O abrigo, o encontro, o percurso.

O encantamento, a segurança, a empatia.

O pertencimento.

Os significados.

A identidade.

Saber querer é olhar para as circunstâncias de um lugar, entender profundamente as pessoas que vão vivê-lo e, a partir de um repertório vasto, saber escolher soluções espaciais para fazer emergir a experiência pretendida.

É querer um vazio que conduza, que pause, que direcione o olhar. A proporção que proteja, que impacte, que apresente. Que a relação entre os elementos crie um lugar de pertencimento.

Todo projeto nasce de uma intenção. E antes de qualquer traço no papel, é preciso ter clareza de onde se quer chegar. Quando ampliamos o nosso repertório, descobrimos que podemos exigir muito mais do espaço.

O "querer", no projeto, não é apenas um desejo. É uma competência treinada.

E uma responsabilidade com o outro.

Para pessoas. Com plantas.

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