Se vivemos nos vazios, por que projetamos os cheios?

Projetamos primeiro os cheios talvez porque tenhamos sido treinados a reconhecê-los como coisas projetáveis.

Uma planta tem espécie, porte, ciclo, custo e disponibilidade.

Um piso tem material, modulação, desempenho e acabamento.

Uma parede tem espessura, altura, estrutura e detalhe.

Um banco tem modelo, fornecedor e preço.

Tudo isso pode ser visto, enumerado, representado, especificado, orçado, comprado e fotografado. Os instrumentos com que trabalhamos tornam as coisas imediatamente legíveis.

O vazio não opera no projeto da mesma maneira. Ele não tem espécie, catálogo ou código de orçamento. Não se deixa descrever apenas por propriedades próprias. Ele se explica por aquilo que faz acontecer em quem o vive: como orienta um deslocamento, regula uma aproximação, abre ou restringe uma visada, convida uma pausa, produz exposição ou proteção, separa, aproxima, encaminha.

O vazio nos afeta antes das coisas. Não vemos as coisas antes do vazio. Vemos as coisas através do vazio. Uma parede isolada pode ser reconhecida como objeto. Mas, no espaço, ela passa a ser compreendida pela distância que estabelece em relação a outras paredes, pelos limites que constrói, pelos vazios que delimita, pelo que permite ver e pelo que mantém fora de alcance. Uma planta também. Ela deixa de ser apenas uma espécie identificável quando integrada na paisagem, na construção da escala, da visibilidade, da aproximação, da sombra e do espaço que se vive ao redor dela.

Se projeta para pessoas, um arquiteto não deve ser especialista em paredes. Deve ser especialista no que acontece entre elas. Superfícies, acabamentos, texturas, cores e volumes construídos seguem importantes. Mas a razão da arquitetura está no espaço que habitamos. O vazio.

No paisagismo, não é diferente. Plantas, pisos, água, mobiliário e limites permanecem fundamentais e possuem qualidades e contribuições próprias. Mas o efeito que produzem é conjunto, é relacional. E é percebido no vazio.

Que vazio queremos produzir?

Embora possa parecer mais difícil de projetar assim, é perfeitamente possível começar por essa pergunta. Primeiro, decidir as relações espaciais: eixos, direções, proporções, conexões. Onde alguém chega, por onde atravessa, o que encontra, o que vê, o que permanece fora de alcance, onde se aproxima, se afasta, para ou segue. O que se torna compreensível, como o percurso constrói uma narrativa, que relações o espaço favorece, como sua identidade se revela.

Depois, podemos escolher a matéria capaz de articular fisicamente essas relações, agora orientados por aquilo que desejamos construir.

Para pessoas.

Com plantas.

Paisagismo não é jardinagem.

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Qual o tamanho das ideias que conseguimos ter?