Sobre querer vazios
Projetar é saber querer.
Só pode haver projeto se houver desejo. Desejo de transformar uma condição, resolver uma dificuldade, proteger alguma coisa, tornar uma vida mais possível, fazer aparecer uma relação que ainda não existe. O projeto começa quando alguém quer que a realidade seja diferente.
O problema é que, no mundo real, os desejos que chegam ao projeto nem sempre concordam entre si. Queremos abertura e proteção. Encontro e recolhimento. Clareza e descoberta. Conforto, beleza, desempenho ambiental, economia, duração. Cada escolha favorece certas possibilidades e restringe outras. Por isso, querer ainda não basta. É preciso discernir entre desejos, comparar consequências, ponderar conflitos, estabelecer prioridades, decidir o que importa mais, em que medida e em que circunstância. É preciso dar direção ao desejo. É preciso saber querer.
Mas é preciso também saber desejar. Só podemos escolher entre as opções que conseguimos reconhecer. Escrevemos com palavras que sabemos que existem. Combinamos sabores que já provamos. Imaginamos formas de viver que, em alguma medida, já entraram no nosso campo de experiência. Aquilo que desconhecemos não existe como alternativa. Não é recusado nem deixado de lado; simplesmente não participa do desejo.
Cada projeto é produto dos desejos que o constituíram. Há objetos de desejo que já reconhecemos com facilidade: uma planta, um piso, uma luminária, um mobiliário, uma imagem, uma solução construtiva. Sabemos nomeá-los, compará-los, desejar mais ou menos de cada um. Eles entram naturalmente na conversa.
O vazio frequentemente fica fora desse campo de desejo. Mas o vazio é o campo da experiência: é onde alguém chega, por onde atravessa, olha, para, encontra e permanece. É onde podemos estar. É onde existimos. Produzir experiência passa por saber desejar vazios. E projetá-los. A distância precisa tornar-se algo que se pode construir. A conexão, uma escolha. A abertura, uma relação entre o que revela, o que oculta, o que anuncia e o que vem depois. A transição, uma articulação entre condições distintas.
Projetar para pessoas é projetar vazios.
Projetar vazios é querer vazios.
É saber querer vazios.
Para pessoas. Com plantas.
Paisagismo não é jardinagem.